No Grunge Code

Tudo sobre o som de Seattle. Tudo sobre Pearl Jam, a trilha sonora da minha e de muitas vidas. Everybody loves us, everybody loves our town!

Perda da inocência

Eu comprei uma arma e escolhi drogas ao invés dela. – Kurt Cobain

Fugir do mainstream sempre foi um dos assuntos mais importantes para os músicos mais influentes do movimento grunge dos anos 90. Não ceder à imprensa, não fazer concessões para gravadoras, enfim, não deixar que suas músicas tomassem a forma do mercado e perdessem seu caráter cru, selvagem. Kurt Cobain era um ferrenho pé no saco das grandes gravadoras, pelo fato de não querer suas músicas sendo tocadas por todas as rádios, ou que seu rosto aparecesse em revistas como a “Time”, que segundo Bob Dylan, era a revista que nossos pais liam, e que os editores desse tipo de revista tinham muito a perder publicando a verdade. E também para Cobain, sua música não tinha nem sequer qualidade o suficiente para figurar entre as “100 melhores da Billboard”, ou de fazer o sucesso imenso que o Nirvana fez.

Outro artista conhecido por não ser muito fã de seu próprio sucesso e não lidar bem com a fama era Layne Staley. Voz quente, rasgada, característica de alguém que vivia com ódio e algo mais. Layne costumava olhar com ironia para uma plateia que batia muitas palmas e ovacionava sua banda após uma louca performance de “Rooster” ou “Would?”. Vedder custou a conseguir com que esses dois, Kurt principalmente, vissem que sua música era diferente da música deles, mas que não deixava de ser alternativa. Por causa do estrelato explosivo do Pearl Jam, Cobain tinha certo asco da banda, dizendo que odiava o Pearl Jam e que eles eram muito comerciais para serem verdadeiros “alternativos”. Mais tarde os músicos fizeram as pazes, e viram que não fazia sentido sua rivalidade, pois as mesmas pessoas gostavam das duas bandas.

 

Penso que muito da briga desses artistas contra as “grandes massas” que manipulam e convencem, vem de dentro, esse ódio pela rotulação, enquadramento e engessamento. Querendo ou não esses músicos passaram por maus bocados na infância, e acharam na música um alento, e principalmente, um meio para se comunicar com seus semelhantes e dizerem tudo o que sentiam, com raiva ou angústia. Vedder com seu problema de só saber quem era seu pai depois de muito tempo vivendo com um cara que ele achava que era seu pai(sim, confuso), Layne que há muito já tinha perdido contato com o pai, mas quando o Alice In Chains começou a fazer sucesso, seu pai sempre aparecia fingindo interesse e pedindo dinheiro para drogas – “Eu tinha uns 20 anos, e a música se tornou minha única obsessão para me manter vivo eu tive a chance de jogar toda essa raiva na música e ajudar os outros com isso. Era terapêutico e funcionou [para] mim por um tempo, até meu pai ver a minha foto impressa em uma revista.”– Layne. E Kurt que enfrentava diversos problemas também na infância, como a separação de seus pais e a convivência com os novos parceiros dos mesmos, bullying no colégio, e constantes atos de rebeldia e vandalismo – “Odeio mamãe, odeio papai. Papai odeia mamãe e mamãe odeia papai. ”– frase de Cobain.

Será que o grunge perdeu grandes vocalistas como Layne, Kurt e Andy Wood (Mother Love Bone), não para as drogas, e sim por causa do sucesso dos mesmos? Ou por não saberem como isso os afetava verdadeiramente? É visível que esses artistas tinham lutas internas, e as enfrentavam, e faziam músicas com isso, e de repente muitas pessoas começaram a se interessar por aquela música que era profunda e pessoal. Para os rapazes de Seattle que nunca imaginaram que seus problemas poderiam virar soluções para jovens de grande parte dos Estados Unidos ou que tantas pessoas se identificariam com suas lutas – this was a big, big deal. Era tão grande e fora de controle para eles, que não sabiam como lidar. Andy perdeu sua vida para a heroína em março de 90, meses antes de sua banda com Jeff Ament e Stone Gossard gravar e lançar seu primeiro álbum. No dia 5 de abril de 1994 Kurt ia embora dizendo que é melhor queimar do que apagar aos poucos. E ironicamente no mesmo dia, mas oito anos depois, Layne era quem nos deixava. Duas almas que de tão pesadas não se encaixavam nesse mundo de hipocrisia.

 

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Publicado às 10 de outubro de 2014 por em grunge e marcado , , , , .
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